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Parte 21 – A escolha dele

Anaxor olhava seu salão de conferencias e contemplava o palco que se montava diante dele. Seu filho Demir tinha conseguido voltar de Delus e com ele havia trazido outro eterno para sacrifício. Além de ter conseguido domesticar um Infernal. De certa forma estava orgulhoso. Mas só falaria alguma palavra enaltecedora quando Demir subjugasse o eterno de Delus na sua frente.

– O que está esperando meu herdeiro? Sei que não os trouxe aqui para que eu os mandasse instantaneamente para Primus. Sei que quer meu reconhecimento não é? Se o quer tanto combata com esse menino até que a vontade dele tenha se esvaído. Assim eu faço minha parte e o banirei para sempre de Mítica! Vamos Demir! O que está esperando? O que você escolhe? Amizade ou um futuro glorioso?

– Ein? – disse Eron enquanto Anólia ficava entre ele e Demir e dava um tapa na máscara deste.

– Você mentiu para a gente! Nos confiamos em você! Disse Anólia furiosa.

– As coisas são assim. Apenas são assim – disse Demir tentando empurrar Anólia para o lado, mas fracassando. Parecia que a menina era uma coluna de ferro fincada na estrutura do castelo. – O que?

Nesse instante Anólia virou um olhar para Eron. Ela nada disse, mas seus olhos transpareceram apenas que era bom ter conhecido ele. O chão debaixo dos pés da menina começaram a afundar. Cortes sangrentos começaram a se formar por todo seu corpo. Desses cortes começaram a brotar braços. Pares, dúzias, centenas! A menina foi perdendo sua forma doce e delicada e titã conhecido como Hecatonquirus surgiu em toda sua gloria destrutiva. E devido ao seu tamanho o teto do castelo foi destruído em uma explosão de blocos de pedra que se espalharam por quilômetros ao redor do castelo. O monstro rodopiou para cima de Anaxor e começou a ataca-lo.

Demir já sabia do poder da criatura e mandou que o Infernal ajudasse seu pai. O demônio-dragão abriu suas asas vermelho sangue, vôo para o alto e se preparou para atacar Hecatonquirus com um rasante quando ele foi abordado em pleno ar pelo Velho com suas asas abertas de anjo.

– Você luta comigo! – disse O Velho desafiando o Infernal. O Infernal aceitou o desafio e nos céus de Alastyr um glorioso combate se travou.

Eron tentava entender o que estava acontecendo quando Demir surgiu do seu lado com uma aura de fogo ao seu redor. Em suas mãos ele carregava duas espadas flamejantes.

– Você vai fazer o que seu pai disse? Vai me atacar? Você não deve fazer isso! Temos que impedir o combate dela com seu pai. Não entendo no que ela se transformou. Estou com medo e preciso de sua ajuda. Eu estou com medo Demir! Eu que nunca me importei muito com nada. Estou com medo!

– Vai sentir muito mais! Ah vai! – disse Demir cravando uma das espadas no peito de Eron. – Isso dói? Espero que sim! Quem podia imaginar que a doce Anólia fosse o tal monstro capaz de derrotar um Eterno ein? Agora a história contada pelo Goblin Azul faz sentido. Anólia é filha da ranger que era a portadora da alma de Hecatonquirus. De alguma forma o monstro conseguiu sair de sua prisão e se unir a Anólia! Não consegue falar? Os cortes de minha espada estão te fazendo sofrer? Que bom!

Eron ouvia o falatório de Demir enquanto era estocado, cortado e queimado. Ele não tinha como lutar com alguém que tinha sido treinado para isso e ele fez a única coisa que podia. Rolou para perto de sua bolsa e tentou tirar uma salvação de dentro dela. Mas a bolsa estava vazia. Não havia nada dentro dela. NADA!

– Vazio né? Achou que os presentes iam durar para sempre?

– Na verdade achei sim – disse Eron correndo na direção de Hecatonquirus. – Anólia! Lute por controle! E não por destruição.

Nesse momento Hecatonquirus, extremamente ferido por ataques indiretos e não mágicos, já tinha absorvido Anaxor que tentava lutar em seu emaranhado de braços armados. Ele se virou para Eron e disse com sua voz de várias bocas.

– Anólia não está mais aqui. Nós assumimos o controle da menina no momento em que ela nos libertou de nossa prisão debaixo da figueira. Ela apenas não sabia que a deixamos nos levar para o melhor lugar em que poderiamos estar. Em um lugar com três eternos prontos para serem ceifados! Nós vivemos para destruir eternos! Acabar com eternos é nossa razão de existir! Agora é a vez de vocês! – disse o monstro enquanto avançava para cima deles mas era cortado ao meio por uma viga de metal segurada por um enorme gigante feito de sombras.

Para jubilo de Demir o monstro caiu e foi se desmanchando até sobrar apenas Anólia fraca e inconsciente. Seu pai tinha conseguido derrotá-lo! Temporariamente mas tinha conseguido! Nesse instante o gigante de sombras transformou-se novamente em Anaxor que caiu de joelhos extremamente enfraquecido. O combate tinha sido extremamente exaustivo. Mesmo um Eterno tinha poderes mágicos que precisavam ser recarregados. Mesmo sendo uma bateria muuuito longa.

– Vejo que está cuidando muito bem do novo eterno de Delus. Termine o serviço. Eu processo o banimento e Delus terá você como seu futuro amo e senhor! Eu estou realmente orgulhoso de... – tentou dizer Anaxor quando dois pequenos magos maltrapilhos usando mantos negros surgiram atrás dele. Eles tocaram as mãos e uma caixa de metal surgiu desmontada debaixo de Anaxor. A caixa foi se montando em volta dele e o aprisionou.

Nesse momento Eron estava caído se contorcendo de dor e tentava se arrastar até onde estava Anólia. Mas só tentava porque ele não conseguia sair do lugar. As feridas causadas pelas espadas mágicas de Demir demoravam para regenerar. Pela primeira vez depois de sua primeira morte ele sentia dor constante que ele não conseguia deixar pra lá.

– Vocês? Esse era o pagamento que falaram que iam cobrar pelas espadas e por terem me tirado do Vale das sombras? – disse Demir se preparando para atacar os dois magos.

Mas eles se limitaram a abaixar seus capuzes e horrorizar Demir com a visão dupla dele mesmo. Os dois eram exatamente iguais a ele exceto por terem cabelos longos e pela pele mais pálida.

– Não se atreva a nos atacar irmão! Te ajudamos apenas para que pudéssemos aprisionar vosso pai. Torturá-lo pela eternidade é tudo que desejamos por ele nos ter abandonado no Vale das Sombras. Você não faz idéia das coisas que passamos naquele lugar. Ironicamente é para lá que estamos voltando. Lá é nosso lar e você pode ficar aqui e governar. Não nos importamos.

– Eu ordeno que... – tentou dizer Demir enquanto via seus irmãos gêmeos conjurarem outra magia que os fez serem engolidos por sombras e desaparecerem.

O combate entre O Velho e o Infernal ainda não tinha sido finalizado. O Velho poderia matar o demônio se o mesmo não tivesse se multiplicado em várias copias de si mesmo. A cada cópia que ele matava ele criava outras duas. Por outro lado o demônio também não conseguia ferir seu oponente por causa do escudo. De certa forma um anulava o outro. E ambos desistiram de se engalfinhar quando Anaxor foi levado. O infernal voou unindo-se a suas copias e parou perto do trono e longe do alcance de seu oponente. Enquanto que o Velho partiu para cima de Demir.

Toda a cidade de Zamzibar estremecia tamanho o poder que era concentrado no castelo do eterno. Em cada canto da cidade os magos lutavam para controlar seus próprios demônios. E não estou falando metaforicamente. Com a Ausência de Anaxor todos os demônios, que antes eram facilmente subjugados por qualquer demonologista, se rebelaram. Em frenesi lutavam contra seus antigos senhores. O caos estava nas ruas e soldados lutavam ao lado de aventureiros e de qualquer cidadão capaz de se defender. Infelizmente a maioria da população era indefesa e sucumbia vítima de seus antigos escravos. A frágil ordem da capital tinha desaparecido.

Nesse meio tempo o Velho segurava Demir pelo colarinho contra uma das colunas do salão do eterno e indagava Demir:

– O que pensa que está fazendo garoto? Você não queria tanto o lugar do seu pai? Porque ezita?

– Eu.. anh.. eu – balbuciou Demir aos prantos.

– Você traiu a confiança de duas crianças que confiavam em você! Para que? Para ficar em duvida? Deixe de ser um bebe e aja com convicção!

– Mas.. eu.. EU NÃO QUERIA O LUGAR DELE! – disse Demir explodindo de raiva e conjurando uma magia que fez com que o chão sob seus pés desaparecesse e um fosso se formasse no lugar do piso sob os pés do velho. Esse fosso cortou o salão no meio e descia até o térreo do castelo. Assim eles caíram e ele se aproveitou para se soltar e voar para longe em segurança ao lado do corpo caído de Anólia do outro lado do fosso.

O Velho não fez por menos e evitou cair abrindo suas asas angelicais e voando para o lado do salão onde estava Eron caído em posição fetal.

– Se não queria o lugar dele porque provocou tudo isso? Acha que esse caos é benéfico para seu país? Acha que Mítica não entrara em colapso se os demais eternos entrarem em conflito por esse território?

– O que isso te importa Velho?! Você nem deve ser desse mundo!

– Tem razão! Eu não sou. Venho de um lugar onde os humanos ainda estão aprendendo a lidar com o fogo, costurar peles e criar lanças com paus e pedras lascadas. Sou uma criatura que jamais irá compreender por mais poderoso que possa se tornar. Ser esse algo incompreensível não me trouxe muita alegria sabe? Mas minha história não interessa. Faço o que devo fazer! E se acha que o que acontece aqui em Mítica não me afeta está enganado. Se qualquer um dos mundos entrar em colapso todo o universo ira se desfazer. Cabe a mim proteger a unidade das coisas. Esse é meu papel dado pelos meus criadores.

– Você fala demais para um Velho com asas de anjo e portador de artefatos poderosos. Se tens tanto poder porque não me destrói pelo que fiz com seu protegido e a amiga dele?

– Não cabe a mim julgar. Cabe a mim apenas manter a ordem. Mesmo que essa ordem seja fazê-lo sentar naquele maldito trono e aceitar seu papel como senhor desse país.

– Você é engraçado! – disse Demir ainda com lagrimas vertendo de seus olhos. – Tanto poder e não enxerga que eu apenas queria que meu pai tivesse orgulho de mim? Eu não queria que meus irmãos o levassem prisioneiro para o Vale das Sombras. Não queria que Hecatonquirus o atacasse. Eu queria apenas destruir Eron na frente dele e provar que eu era digno. Digno de... de..

– Receber um abraço dele? – disse Eron se levantando com a cabeça baixa. Seus cabelos louros desgrenhados tampavam seus olhos. Tudo que era possível era ver um sorriso de desespero em seu rosto. – Eu sei que pareço e ajo como bobo a maior parte do tempo. Talvez seja porque tudo para mim é uma grande novidade. Chame-me de estúpido, idiota ou qualquer outra coisa! Não me importa! Se você queria tanto me sacrificar para seu pai seria legal ter pedido né? Eu teria negado é claro, mas pelo menos você estaria sendo honesto. Anólia quase morreu tentando me proteger de seu pai! Seu pai foi preso pelos seus irmão vingativos e eu não pude fazer nada além de me contorcer no chão como um inseto abatido! Mas estou cansado de suas baboseiras de filhinho mal amado! Pelo menos você teve pai! Agora eu vou pegar Anólia e vou para bem longe de você e de suas mentiras! Tente me impedir e vai receber mais do que um abraço de amigo!

– Ah! Você sempre me surpreende Eron! Só queria saber como vai fazer isso sem sua preciosa maleta! Sem ela não passa de um menino idiota difícil de matar!

– Tem razão! Eu estou sem a maleta. Estou sem nada e acho que vou ter que me virar com isso né? – disse Eron desesperado encarando o demônio-dragão que auxiliava Demir.

– O que pensa que pode fazer com um demônio poderoso como esse que me segue? – disse Demir observando Eron erguer a mão e apontar um dedo para o Infernal. Ele apontou como se segurasse uma besta de disparo invisível.

– POP! – disse Eron como se puxasse um gatilho imaginário. Nesse momento o infernal desapareceu sem deixar rastro.

– Como? –perguntou Demir Atônito.

– Eu apenas me lembrei dos ensinamentos do Mestre Guimbler.

– Mas aquele goblin maldito não te ensinou nada!

– É verdade. Não ensinou nada! Mas com sua história eu aprendi que a magia deve ser focada em algo que estamos familiarizados. Você foca em destruição, Guimbler focava em terra e eu foco na única coisa que tenho. O NADA!

– Pare de falar besteiras! Não se pode focar magia no nada! Todo mago sabe disso! Eterno ou não todo mago deve cumprir certas regras. Não podemos fazer magia apenas com nossas vontades! É preciso treino e dedica... – disse Demir enquanto via Eron apontar o dedo para ele. – Para onde você mandou meu Infernal?

– Eu não faço idéia! Não sei se percebeu mas eu não sou muito experiente nesse negócio de magia, mas fica tranqüilo, seja lá onde for eu acho que você vai descobrir em segundos! HAHAHAHAHHAHAHAHAA!! - Começou a gargalhar Eron desesperado. Ele não sabia mais oque fazer, estava assustado e queria que tudo voltasse ao normal, nem ele acreditava no que tinha acabado de fazer. Nem ao menos sabia se iria funcionar com outro Eterno. Mas que escolha ele tinha? Pensava.

Não faça isso!!

– POP! – disse Eron vendo O Velho entrar na frente dele com o escudo erguido e cancelando seja lá o que for que Eron tenha feito.

O velho agachou para ficar na altura de Eron e disse olhando em seus olhos avermelhados de desespero.

– Já chego Eron! Você não deve tentar mais fazer magia até que aprenda a controla-la!

– Então você vai pegar a Anólia para sairmos daqui?

– Anólia não existe mais. Hecatonquirus assumiu o controle de sua alma.

– Eu não vou abandona-la!

– Você não tem escolha. Não agora! Talvez algum dia possa reverter o que aconteceu a ela. Mas primeiro você deve desenvolver suas habilidades. E você Demir – disse o Velho se virando para Demir. – deve assumir como Eterno desse país antes que ele seja destruído pela própria fonte de poder.

– E o que eu devo fazer com a Anólia, ops, quero dizer Hecatonquirus?

– Não me importa o que vai fazer. Apenas faça antes que ela acorde. Pois ainda pode ter alguma memória e talvez decida brincar com você como brincou com seu pai. – disse o Velho apontando o escudo para uma parede e disparando um feixe de luz do escudo que abriu um portal tremeluzente púrpura. Ele pegou Eron pelo braço e ambos cruzaram o portal de destino incerto.

Demir suspirou aliviado com isso. Ele jamais adimitiria. Mas o velho conseguia deixa-lo apavorado. Ele caminhou até o trono. Contemplou por alguns instantes.

E ele SENTOU

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Parte 22 – Epílogo


Caminhei por colinas, cruzei rios, florestas e montanhas. E agora no começo do fim. Ou seria fim do começo? Vejo que o sol continua a nascer, independente das coisas que ocorrem aqui em Mítica, pensando nessa insignificância contemplo o país de Primus. Diferente de tudo que já vi, ele me convida a conhecê-lo. É um convite a aventura que não posso recusar, pois devo agora entender quem eu sou e o que é ser um eterno. Só assim poderei fazer diferença para proteger os que amo. Não imagino quais são os planos do Velho. Ele me largou nesse país desconhecido e me desejou sorte, despediu-se, abriu um portal e disse apenas que não nos veríamos nunca mais.

Algo na minha cabeça me perturba. Talvez seja a voz do louco que eu encontrei na gruta. Acho que a voz talvez esteja certa. Se estiver que comece a jornada do LOUCO!

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Parte 20 – Zanzimbar

-- E então? – perguntava Elói caído no chão com algumas costelas quebradas e com um filete de sangue escorrendo de sua nuca.

-- Então o que? – perguntou o Velho verificando o escudo dourado e polindo sua superfície com um trapo que tinha tirado do bolso.

-- Você vai me matar?

-- Não tenho porque fazer isso. Você me roubou e graças ao meu amigo gigante aqui eu recuperei o escudo. Comigo está tudo em ordem.

-- Então posso ir embora vivo?

-- Isso se meu amigo gigante aqui achar isso justo. O que acha Pif?

-- Humm.. Pif acha que fica mais justo se Pif arrancar braço de homenzinho.

-- Calma ai! Não fui eu que arranquei seu braço! Foi Borgus. Olha eu tenho uma idéia melhor... eu te ajudo a encontrar quem arrancou seu braço e você não arranca o meu! Sou apegado a ele sabe? Desde que eu nasci ele e eu somos grandes amigos!

-- Hunf. – disse O Velho. – Isso fica a seu critério Pif, devo ir atrás da espada e de Eron antes que ele cai em uma armadilha. Se o que esse ladrão disse é verdade o filho de Alastyr quer da-lo como oferenda para seu pai. E isso é algo que não posso permitir.

-- Pif agradece Velho. Pif já sabe o que fazer. Pif vai levar esse ladrão para trabalhar na lavoura de abóboras dos gigantes da colina. Assim ele aprende o valor do trabalho. E nem tente fugir de Pif homenzinho!

-- Que assim seja. Adeus amigo.

-- Nos veremos novamente?

-- Se tudo der certo você nunca mais vai me ver.- disse o Velho seguindo a passos largos para a entrada da Caverna do Amanhã.


Caminhando pela capital Zanzibar Eron e Anólia se sentiam perdidos em meio a tantas pessoas. As ladeiras, escadas e ruas infindáveis esculpidas em meio ao magma solidificado lhe davam a sensação de estarem perdidos em um labirinto. Por conta disso seguiam Demir como cachorrinhos perdidos e desamparados. O próprio Demir só tinha caminhado pela cidade quando saiu do castelo e rumou para Delus com a missão de conquista. Mesmo assim ele tinha seu GPS e não se sentia perdido.

Eron ficou encantado em ver tantos demônios diferentes fazendo as mais habituais tarefas na cidade. Um que parecia um cavalo anabolizado de duas cabeças puxava uma carroça cheia de caldeirões negros. O cocheiro usava um manto vermelho e exibia um colar de prata com um amuleto de pentagrama. Na calçada de um restaurante Anólia viu um demônio humanóide de pele amarelada varrendo a calçada de um restaurante. A semelhança entre todos os demônios eram símbolos arcanos tatuados em seus corpos.

– O que são aqueles desenhos feitos em seus corpos? – perguntou Eron para Demir.

– São runas mágicas de contenção. Invenção do primeiro Eterno do páis, Alastyr em pessoa. Ele desenvolveu a técnica e hoje qualquer demonologista consegue fazer os símbolos. Mas os mesmos só funcionam graças a vontade de meu pai. Sem um eterno no controle esses símbolos perderiam o poder e os demônios teriam seus poderes liberados para e voltarem contra o povo.

– Porque eles são escravos! Isso é errado Demir – disse Anólia chateada.

– Para vocês que nasceram em um país verde de terra fértil é fácil falar isso. Aqui a vida é dura, o solo é quase estéril e só é possível mantermos nossa sociedade graças ao trabalho forçado dos demônios. Usamos o mal para o bem. Agora chega de perguntas bobas. Vocês estão vendo essa rua principal com postes vermelhos? – Eron e Anólia balançaram as cabeças positivamente. – Continuem seguindo essa rua e você chegaram no castelo. Esperem-me nos degraus de entrada que eu devo fazer algo antes de vermos meu pai.

– Se é importante tudo bem. Vamos tentar não nos perder. – disse Anólia segurando Eron pelo braço e impedindo que esse seguisse um grupo de cinco macacos demoníacos que tinham asa de morcego e usavam coletes e pequenos chapeuzinhos. – A gente chega no castelo.

Assim Demir se separou de Anólia e Eron, pois desde que entrara na cidade escutava uma voz chamando-o em sua cabeça. Não sabia quem estava fazendo isso. Mas seria bom verificar e silencia-la, caso fosse necessário, pois não queria nada em sua cabeça quando atingisse a gloria que estava tão próxima.

Na sua cabeça a voz, que não conseguia definir como masculina ou feminina, dizia apenas “Venha me busca no zoológico. Liberte-me e te servirei”. Como servos nunca eram demais ele decidiu arriscar e entrou pelos amplos portões do zoológico municipal de Alastyr. Onde uma grande variedade de demônios era exposta para curiosos, demonologistas e pesquisadores.

Enquanto isso Eron e Anólia se encontravam em uma rua no alto de um morro. De onde estavam era possível ver toda a caótica cidade de Zamzibar. Faltava pouco para alcançarem o castelo do Eterno. Mas Eron acabou saindo da rua principal devido a alguma distração. Algumas escadas e vielas depois estavam em uma ampla e deserta rua. Até sabiam como voltar para a sua principal, Infelizmente entre eles e o objetivo se encontrava o restante da Irmandade. Borgus, Esclerus e Parnis.

– Desista Eron! – disse Borgus empunhando sua espada e ficando em posição de combate. Agora não era hora de subestimar o menino, afinal ele já poderia ter manifestado algum poder inerente aos de sua linhagem. – E você menina mal criada venha já para cá! Nós viemos te salvar antes que algum mal te aconteça.

– Mal? MAL? – disse Anólia dando um passo a frente de Eron enquanto o mesmo revirava sua maleta em busca de uma espada mágica, escudo, armadura ou qualquer outra coisa útil para usar contra os adultos malucos que não conseguiam gostar dele. – Mal foi o que o Padre fez comigo ao me aprisionar debaixo da figueira! É melhor vocês três saírem daqui! Vocês são ruins! E só querem fazer maldades comigo e com o Eron. Estou cansada disso saim daqui! – Se Eron não estivesse entretido com sua mala ele veria os olhos de Anólia emitirem um brilho vermelho faiscante.

– Por Lexus! Ela está começando a manifestar! Mas como? Então você a entregou antes da hora não é Parnis! Fantasma idiota! É melhor darmos o fora daqui Borgus. Não tenho poder suficiente para lidar com essa situação. Não aqui e não agora! – disse Esclerus vendo o olhar frio de Borgus exigindo que ele não recuasse. Era um olhar frio que não precisava vir acompanhado de palavras para ser compreendido. – Ta ok.. eu entendi, vou usar minha flauta e fazer com que durmam, assim você pega sua filha e sumimos daqui.

Esclerus fez uma flauta aparecer em suas mãos com um passe de mágica e começou a toca-la.

Enquanto isso Demir andava pelo Zoológico municipal de Zanzibar. Ele sabia que o que procurava não estava muito longe, ainda sim não era muito fácil encontrar em um lugar que nunca tinha estado antes. Ser levado para o zoológico pelo pai era coisa para crianças normais. Ele aproveitou muito bem seus quase onze anos de idade com o árduo aprendizado da magia. Infelizmente o fato de não ter tido uma infância normal o deixou abobalhado olhando as mais variadas espécies de monstros e animais do lugar.

“Zeticus-Carnivuros-Felixus” Lia Demir em uma plaquinha de metal colocada na grade de uma enorme jaula. A jaula em si não combinava em nada com seu ocupante. Um gatinho branco com 30cm de altura. Extremamente fofo ele tinha um fio de sangue escorrendo de sua boca e envolta dele haviam várias carcaças de gado. Os olhos verdes do gato eram enigmáticos e encaravam Demir com curiosidade.

– Você é um animalzinho fascinante! Que provavelmente esconde a verdadeira forma com algum tipo de ilusão. Infelizmente não é o que procuro. Procuro algo mais inteligente e menos imprevisível do que você.

Zeticus apenas olhou para Demir virando sua cabeça de lado e começou a lamber a pata direita e esfrega-la em sua cabeça. O pequeno animal sabia que ainda encontraria a liberdade, mais cedo ou mais tarde.

Demir continuou sua busca pelo zoológico sem saber que perto do castelo uma luta de vida ou morte era travada.

– Eu não consigo tocar a flauta com aquela peste tocando aquele maldito apito! – reclamou Esclerus para Borgus.

– As vezes duvido de sua capacidade velho mago! – disse Borgus avançando impaciente para cima de Anólia. Agora poucos metros os separavam. – Cuide de Eron Parnis! Duvido que ele possa fazer algo com você.

Assim Borgus continuou avançando e foi ultrapassado por Parnis que voava rápido na direção de Eron que tocava o apito.

Vendo a entidade fantasmagórica vir para cima, Eron achou dentro da maleta um triangulo dourado. Era um símbolo sagrado do Deus Yuksar. O qual Parnis seguia com tanta fé antes de sua morte. O menino pegou o simbolo apontou para o fantasma que voava rápido em sua direção e gritou:

– Sai de retro fantasma! Em nome de Yuksar eu te ordeno! – Eron não sabia ao certo se aquilo ia funcionar, mas não custava tentar pensava ele. Pelo menos isso tinha funcionado em uma história que tinha ouvido.

– Há ha há há há há ha! Isso só funciona se usado por pessoas com fé! – disse Parnis quase cravando suas garras insubstâncias no peito de Eron – Nesse momento Anólia pegou o símbolo sagrado da mão do menino sem fé e repetiu as palavras segundos antes do fantasma toca-lo com seus dedos sobrenaturais. Quando Anólia terminou de recitar as palavras o fantasma paralisou em pleno vôo e começou a brilhar imensamente.

– Considere isso um pagamento pelo que me fez Padre. Muito obrigada por ter me ensinado nas aulas da aldeia que a fé consegue afastar qualquer mal espírito.

Diante da fé da menina Parnis deu meia volta, vôo em pânico e depois de atravessar uma parede nunca mais foi visto em Alastyr.

– Muito bom Anólia! Não sabia que você tinha esse poder!

– Sei lá como eu fiz isso! A pergunta maior é porque você parou de tocar o apito

– Eu perdi ele na bolsa na hora que eu peguei o simbolo sagrado, to tentando achar de novo mais ta difícil!

– Veja! Esclerus vai começar a tocar a flauta novamente. Estamos perdidos!

Estariam se Demir não chegasse no exato momento em sua forma de demônio alado e arranca-se a flauta de Esclerus. O herdeiro de Alastyr olhou com arrogância para o mago e se espantou quando esse que deveria estar espantado, apenas lhe levantou uma das sobrancelhas e deu um riso de canto de boca.

– Acha que preciso da flauta para deter um de vocês dois? Crianças podem ser chamadas de eternos mas não possuem nem metade de minha experiência.

– CALADO!! – gritou Demir usando uma beirada afiada como machado de sua asa e decepando a cabeça de Esclerus. – Infernal! Neutralize borgus!

Nesse instante um demônio vermelho de 3 metros de altura se manifestou entre Borgus e Anólia. Ele poderia ser confundido com um simples demônio se não fosse suas carateristicas de dragão e asas de plumas negras. Seu olhos amarelo faiscavam um brilho gelado e aterrorizante. Aparentemente Demir tinha encontrado o amigo que procurava no zoológico.

Borgus não se intimidou pelo monstro e o atacou decepando seu braço direito. Mas isso não o impediu de agarrar a mão que Borgus segurava a espada.

– Impressionante essa espada! Capaz de ferir um dos 9 princípes de Órbia. Essa espada vai fica muito bonita em minha coleção! O que quer que eu faça com esse humano patético?

– Você não vai fazer nada com meu pai! Deixe ele em paz! – gritou Anólia começando a chorar.

– É isso mesmo! Deixa o prefeito em paz monstro legal que eu nunca vi antes! – disse Eron acompanhado anólia e batendo no couro rijo do demônio-dragão com suas mãos macias e sujas.

– Apenas arranque a espada dele e quebre suas pernas – disse Demir satisfeito por finalmente seus planos estarem dando certo. Nem estava se preocupando muito em deixa Anólia ver seu lado cruel, afinal ela já deveria começar a se acostumar com isso pois passaria o resto de sua curta vida humana ao lado dele. E assim ele poderia olhar para ele e se lembrar com detalhes do dia que derrotou Eron e se tornou Eterno de Delus e orgulho de seu pai.

Infelizmente seus sonhos foram interrompidos por centenas de cordas de um piano que apareceu do seu lado. As cordas flutuavam no ar e sem que ele conseguisse reagir o enrolaram e o fatiaram em cubos de carne como faca quente cortando manteiga.

Tocando o piano estava Esclerus coma cabeça no lugar.

– O que? Vocês acharam que perder a cabeça seria meu fim? Bobagem meninos, meninas e infernais! Que tal se eu desse um fim em todos vocês agora? Tenho uma composição pronta para essa situação! E ela se chama Opus Die!

O infernal se distraiu olhando para esclerus e Borgus aproveitou para soltar a fivela que prendia a manopla que segurava a espada, se soltando do monstro. Antes de iniciar sua fuga ele olhou para Anólia como quem perguntasse: quer vir comigo? A menina respondeu que não. Ele terminou de se soltar e da cintura ele tirou um ovo de cristal que estourou no chão e com um brilho pouco intenso desapareceu.

– Para onde foi seu pai?

– Não sei Eron. Mas fico feliz que ele tenha desistido de tentar me salvar e de te fazer mal.

– Como você sabe que ele desistiu?

– Se não percebeu Esclerus está em vantagem ainda. Se ele quisesse tinha ficado e ajudado o mago. Mas ele preferiu partir. Só espero que ele consiga sair de Alastyr.

– Ta certo. Acho que ta na hora de eu dar um jeito no tio Esclerus.

– Ein? – disse Anólia atônita com a seriedade que Eron disse aquelas palavras.

Eron deu um tapinha no infernal e disse para ele não e intrometer. O mesmo ficou curioso e resolveu ficar vendo o que a criança tentaria. Isso seria tempo suficiente para que seu braço direito cresce-se novamente.

– Chega disso Esclerus! Vai embora porque você não tem mais motivo para lutar.

– Ah é? Luto para que você jamais volte para Delus e para acabar com o herdeiro de Alastyr. Luto pela liberdade de Delus! Delus não precisa de Eternos!

– É isso que pensa de coração?

– Como assim? – perguntou Esclerus sentindo uma pontada no peito. Seu coração estava batendo acelerado. – O que você fez? – perguntou o velho mago caindo do banquinho do piano com as duas mãos sobre o peito.

– Eu não fiz nada. Só achei que o dono do seu coração discordasse do que você tanto prega como correto.

– Aaaahhh faça parar! Essa dor! Não! O coração é meu! Porque essa dor... ahhhhhh!!!

Nesse momento a rua foi cercada por guardas da cidade. Até mesmo guardas imperiais foram mandados para resolver a situação. Alguns desse guardas pegaram Esclerus e o prenderam em uma carroça de metal coberta de símbolos mágicos.

Do meio dos guardas um dos generais dos exércitos de Alastyr surgiu e caminhou até o corpo dilacerado de Demir que ia se reagrupando aos poucos. Quando o menino despertouo general olhou para ele com olhos frios através do elmo de sal armadura negra e disse:

– Seu pai está à espera de vossa onipotência e de seus convidados. Aqui está uma máscara branca nova que seu pai pediu para que eu lhe entregasse.

– Ok. Estou quase sentindo minha pernas.

– Se quiser o carregamos.

– Não! Quero chegar andando com o vitorioso que sou.

O General olhava para Demir e conseguia apenas lembrar de seus filhos quando eram pequenos quando estavam aprendendo a andar. Claro que a diferença era enorme, mesmo assim o general achava comovente o que aquele menino estava tentando fazer. Mas tratou logo de esquecer esse pensamento, não cabia a ele ser emotivo. Sua carreira militar não fora criada em cima de sentimentos bobos como compaixão.

– E o que fazemos com o Infernal?

– Eu o libertei! Consegui controla-lo e agora ele me serve! Ele vai conosco para a presença de meu pai. Quero que ele veja que finalmente estou aprendendo a controlar demônios.

Enquanto isso Eron e Anólia caminharam em meios as dúzias de guardas que tinham chegado no lugar e forama te Demir.

– E agora Demir? – perguntou Eron segurando a mão de Anólia

– Agora finalmente vou mandar você para o lugar que merece.

FILHOS DA CORRUPÇÃO
- Parte 1 -


Há muito tempo parei de perguntar o porquê das coisas. Elas simplesmente acontecem e não nos cabe ficar parados tentando entende-las. Não que eu esteja muito ativo nesse momento, mas se você estivesse em meu lugar agiria de forma diferente? faria algo além de gritar, chorar ou simplesmente morrer?
Em que estado me encontro? Sólido em maior parte... mas o líquido vermelho escorre. Ah! Não sei como descrever a sensação da vida se esvaindo de mim. Acho que a palavra "belo" não se aplica nesse caso. Afina é muito mais prazeroso quando o sangue em minhas roupas não é o meu.
Escondido nesse uterino porão eu espero que meu algoz termine oque começou. Claro que não sou uma presa fácil e para realizar seu nobre intuito ele terá que me encontrar antes. Enquanto brinco de esconde-esconde com a morte vou aproveitar para preenche-lo, meu querido diário.
Sei que por muitos anos eu o negligênciei. Te usava apenas para escrever alguns poemas esparsos. Apesar de sempre carrga-lo em minha mochila, nunca tive vontade de transfigurar suas páginas puras e brancas com minha doentia história. Não que eu considere algo que já tenho feito como doentio, mas voc~e, assim como o resto do mundo, deve me julgar um monstro louco. Bom, não importaagora que comecei a preenche-lo devo continuar. Da mesma forma que minha navalha corta: devagar e constantemente.
Meus psiquiatras ficariam orgulhosos em me ver fazendo esse exercício de exteriorização. Tá certo que não podem mais se dar ao luxo de sentir nada porque cometeram o grande erro de se tornarem meus amigos.
Você deve saber que eu sou uma pobre alma amaldiçoadaa não ter amigos. Quando os laços de amizade se forma eles sempre passam a me odiar no dia seguinte. Ciente disso jamais permito que eles vejam o dia seguinte.
Veja só, estou falando de coisas que não devem lhe fazer o menor sentido não é meu querido diário?
Talvez seja melhor que eu comece a partir de minha infância não é? Assim talvez você compreenda como me tornei o que sou hoje e quem sabe até tenha pena de mim. Af! Como se a opinião de um amontoado de folhas, dobradas, dispostas em cadernos, costuradas e envolvidas em uma capa de couro, infelizmente não humano, importa-se! Mas nesse momento você é o único que tenho para me escutar. O único que não preciso temer que se torne meu amigo.
Viu? Estou fazendo novamente. me perdendo. mas antes que minha mente entre em outra espiral negra eu gostaria de finalmente iniciar o breve relato de vida que me fez terminar sangrando nesse porão úmido, apertado e escuro.

No próximo capítulo: Uma infância de contos de fadas
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Parte 19 – O Abismo Sombrio

– Lugar feio seu país ein? – disse Eron enquanto subia o morro enegrecido por cinzas vulcânicas – Olha só ao redor! Tudo preto! Não tem grama, as arvores só tem galhos retorcidos e parecem ser feitas de pedra. Agora entendo porque você foi para Delus. Lá é muito mais bonito.

– Essa região é assim mesmo. Meu povo não dá muita importância para as terras próximas da fronteira. Não se preocupe que também temos terras verdes e exuberantes em enormes vales que outrora eram enormes montanhas de fogo.

– A gente vai passar por algum lugar bonito desses? – perguntou Anólia.

– Vamos não – disse Demir olhando para seu GPS – vamos continuar a viagem por essas terras cinzentas, cruzar o Abismo Sombrio e em poucos dias chegamos na capital onde meu pai o Eterno vai nos receber de braços abertos – disse Demir com o sorriso mais sincero que conseguiu dissimular.

– Eu sei que não conheço muito, mas certa vez o padre de nossa vila nos disse que seu pai era um monstro que escravizava demônios e regia a pessoas desse país com mão de ferro – disse Eron enquanto chutava um pedrinha com sua bota que mais parecia uma sandália de tantos furos.

– O mesmo padre que virou um fantasma e tentou nos matar no rio? Por favor! Não tem como vocês acreditarem em uma besteira dessas.

– Demir está certo Eron, o padre Parnis é ruim - disse Anólia engolindo seco e tomando coragem para contar o que havia ocorrido com ela graças ao padre.

Mas antes que ela pudesse contar algo Eron avistou uma criatura enorme sobrevoar o céu parcialmente nublado de Alasty. Ele correu para o alto de uma colina e subiu em cima de uma arvores petrificada para tentar ver a criatura mais de perto.

– O que é aquilo? – Gritou Eron na direção de Demir.

– Aquilo é nossa carona até a capital! – disse Demir animado e feliz por não precisar mais caminhar. Ele correu na direção de Eron, tirou alguns componentes mágicos de seu bolso e disparou uma bola de fogo com ambas as mãos em direção aos céus, visando interceptar a rota que a criatura alada fazia. A bola flamejante subiu cerca de cem metros e explodiu como fogos de artifício. Isso foi suficiente para chamar a atenção da criatura que mudou a direção de seu vôo para cima das crianças.

– Uau! Está chegando mais perto! Nossa! Nossa! Parece um dragão! Eu to vendo um dragão! Que legal! parece ser um dragão negro!

– É um dragão sim. Mas esse é um dragão de sombras criado pelo meu pai.

– De sombras? – perguntou Anólia vendo a criatura se aproximando planando e pousando perto da arvore. - mas aqui não é a terra dos demônios?

– É sim – disse Demir se aproximando da criatura de quase dez metros de altura. Esse dragão parecia ser formado por fumaça negra. Não era possível saber se ele era solido e encoberto de escuridão ou se era pura escuridão esfumaçada. Sua forma era a de um dragão ocidental. Quadrúpede, com duas asas enormes nas costas, pescoço alongado e cabeça semelhante a de uma iguana. Do topo da cabeça a ponta da cauda um crista de espetos se alinhava pela coluna. Mas meu pai é tão poderoso que depois de dominar as artes demoníacas ele começou a se aprofundar no controle das mágicas de trevas. Ele disse que é bom ter dois focos de magia para nunca ficar em desvantagem.

– Como você geralmente fica né? – cutucou Eron sem maldade, mas mesmo assim fazendo Demir bufar.

– Pelo menos ele faz magia Eron – defendeu Anólia. – E vocês dois parem de bobagem. O que eu quero saber é como vamos viajar nesse dragão.

– A gente só precisa subir em suas costas e sentar entre os espetos de suas costas e segurar firme em um deles – disse Demir olhando para o dragão e falando com o mesmo em uma língua que Eron e Anólia não conseguiram entender. Enquanto conversava com Demir o dragão o encarava com seu olho de energia vermelha brilhante. O dragão era fascinante e assustador ao mesmo tempo.

O dragão virou seu olho para Eron e Anólia e disse em idioma que conseguiam entender.

– Considero vocês como escória de um país medíocre sem sentindo ou propósito. Minha vontade é a de abrir suas cascas frágeis com minhas garras e brincar com as coisinhas que chamam de órgãos vitais. Entretanto devo respeitar o filho de meu criador, atender seu pedido e leva-los para a capital. Subam em minhas costas e tentem não falar durante a viagem. Negritaris será seu guia.

– Também fico feliz em conhecê-lo senhor dragão! – disse Eron sem se incomodar com a rispidez da criatura e começando a subir nas costas da mesma. – Olha! É sólido! Fumaça sólida! Vem Anólia eu te ajudo a subir! Isso pronto. Viu que fácil! Faz que nem eu. Segura nesse osso pontudo que está saindo das costas do dragão que você não cai daqui de cima.

Anólia endireito-se em cima do dragão e só de imaginar o mesmo voando alto ela começou a suar frio e suas mãos começaram a tremer em um espasmo incontrolável.

-- A Anólia tem medo de altura, não tem como fazer alguma magia para acalmar ela? – perguntou Eron para Demir.

-- Tem sim – respondeu Demir tirando um pouco de areia azul de um saquinho de pano e soprando nos olhos de Anólia.

Anólia pegou no sono e Eron a amarrou no dragão com uma corda tirada de sua maleta mágica.

-- Amarrou direito?

-- Amarrei sim. Não tinha um menino da vila que conseguia se soltar depois que eu amarrava. Meu pa... quero dizer, O Velho me ensinou a fazer uns nós muito legais.

-- Hum.. ele parece que foi legal com você. – disse Demir dando um comando para que o dragão alçasse vôo.

-- Acho que foi. Ele não tinha muito tempo para brincar comigo, eu passava quase o dia inteiro sozinho, mas a noite antes de dormir ele sempre me contava histórias sobre lugares incríveis. Uma vez ele me contou a história de um lugar onde as pessoas vestem peles de animais e caçam elefantes com presas gigantescas! Tinha também gatos gigantes com presas enormes que caçavam as pessoas! Não sei ao certo mas parece que tudo nesse mundo tinha presas enormes hehehehe.

-- O que está achando da viagem?

Eron se tocou e viu que o dragão já voava pouco a baixo da altura das nuvens. Era possível ver boa parte do país. Muitas montanhas enegrecidas por eras de erupções vulcânicas. Vales com charcos e algumas cidades-fortaleza até os limites da visão. Anólia dormia tranqüila presa nos nós firmes e gentis de Eron.

Durante a viagem Demir pensou em como seria ter seu pai lhe contando histórias antes de dormir, mas logo começou a rir consigo mesmo, seu pai era um eterno e tinha coisas mais importantes para fazer. Mas bem no fundo achou que teria gostado muito disso, afinal seu pais com certeza teria histórias melhores para contar do que qualquer pás de Mítica.

Algumas horas de viagem depois era possível avistar um abismo que dividia o país em dois.Ele cortava todo o território e tinha mais de 3 quilômetros de largura. Várias pontes o cruzavam. Mas nesse fim de tarde não era possível avistar nenhum viajante cruzando-as.

--Ué Demir, porque não tem ninguém atravessando as pontes?

-- É porque já está quase anoitecendo. Todos sabem que é perigoso atravessar o Absimo Sombrio depois que anoitece.

-- Por quê?

--É a hora que as sombras que vivem no fundo do mesmo saem para a superfície e assassinam qualquer criatura que ouse se aproximar dele.

-- Ainda bem que a gente vai passar por cima dele voando. Não quero ser assassinado, mais doque isso não quero que nada assassine Anólia. Ela é minha melhor amiga sabia?

-- Já sei já sei, e não seja tolo nós eternos não podemos ser assassinados. Nos máximo aprisionados ou banidos para outros mundos.

-- Hum..acho que entendi, bom agora me explica porque esse dragão está voando tão baixo?

-- O que pensa que está fazendo Negritaris? Se continuar nessa direção acabaremos entrando no abismo!

O dragão nada disse e em uma manobra aérea girou seu corpo derrubando Eron e Demir no Abismo. Eron caiu como uma pedra e Demir ainda conseguiu conjurar uma magia de vôo sobre si. Voando lentamente ele viu o corpo de Eron sumir no meio das Trevas. Ele tinha certeza que sem sua ajuda ele jamais conseguiria sair daquele lugar, finalmente seu rival eleito seria derrotado. Mas Demir precisava leva-lo para seu pai! Por conta disso vôo o mais rápido possível na direção de onde o menino caiu. Sua ambição em conseguir agradar seu pai era tão grande que ignorou o fato de Anólia estar indo embora amarrada nas costas do dragão.

Faltava pouco tempo para a noite tomar conta de todo o país. Ele tinha que ser rápido em seu mergulho nas trevas.

A sensação de estar dentro do abismo só é compreendida por aqueles que passam pela experiência. Além da escuridão absoluta, que lhe obriga a dependência do tato, olfato e principalmente audição é possível ouvir pequenos sussurros e lamentos das almas que ainda vagam no lugar. Demir estava caminhando no que deveria ser o fundo do abismo. Ele chamava por Eron e estava feliz por saber que o mais erro que aventureiros cometiam dentro do Abismo era tentar criar alguma forma de luz. A luz criava sombras que davam forma para as almas demoníacas que vagavam pelo lugar. Felizmente ele sabia esse segredo e isso o deixou horrorizado quando viu Eron dentro de uma caverna protegendo a chama de uma vela que ele tinha acendido. Menino idiota! Pensou!

-- Apague essa vela antes que eles te peguem!! Apaga isso agora! – gritou Demir desesperado voando na direção de Eron.

Infelizmente era tarde demais e a chama da vela havia dado forma aos monstros que agarraram Eron e o levaram para dentro da caverna. Os demônios de sombras tinham absorvido a luz da vela e agora tinham luz própria emitida pelos seus olhos vermelho-luminosos.

Eron seguiu as sombras e Eron pelo tempo que conseguiu, mas o labirinto de corredores subterrâneos conseguiu confundi-lo e ele acabou perdendo-os de vista.

Temendo ficar preso ele mesmo naquele lugar ele decidiu esquecer Eron e fugir dali. Um bom plano se consegui-se encontrar a saída. Podia usar o GPS, mas a luz do mesmo iria criar mais sombras. Só conseguia pensar no motivo do dragão das sombras. Porque ele tinha feito aquilo? Alguém o controlava? Ou esse tinha sido a vontade de seu próprio pai? A escuridão estava preenchendo sua mente com pensamentos negativos. Tanto que começava a duvidar que aquelas duas vozes que começava a escutar vinham de sua mente ao invés de outras pessoas.

-- Não nos ignore.

-- Parece até não está nos vendo!

-- Acho que ele não está nos vendo mesmo irmão!

-- Ah é! Pobrezinho. Foi criado na luz e se sente perdido em meio as trevas.

-- Damos alguma luz para ele?

-- Não sei, acho que logo ele se acostuma ou faz alguma magia para enxergar no escuro.

-- Será que vocês poderiam conversar comigo ao invés de agirem como se eu não estivesse aqui? – disse Demir achando muito estranho as duas vozes serem exatamente iguais a sua própria. – Se estão na esperança que eu faça alguma magia luminosa que atraia os demônios de trevas, podem esquecer! Vocês não vão me pegar nesse truque.

-- Acha que precisamos de algum truque? Os Dioscuros de Alastyr não precisam de truques! Tudo que precisamos de uma pequena luz! – falando isso um pequeno brilho se acendeu na ponta do dedo indicador em riste de um dos gêmeos.

Demir viu que estava em uma pequena sala cavernoas. Ficou feliz em saber que não estava enlouquecendo ao ver diante de si dois homens pequenos (ou crianças) de seu tamanho usando mantos negros de tecido esfarrapado. Era impossível ver seus rostos por causa dos capuzes. Atrás deles vários demônios iam tomando forma e esperando algum comando deles para agir.

-- Quem são vocês!

-- Acho que já nos apresentamos como Dioscuros de Alastyr não?

-- Tenho certeza que sim irmão! Esse rapaz é meio burrinho e não deve ter entendido.

-- Com certeza. Luz demais deve ter fritado a mente dele.

-- Pelo jeito sim. Mas não se preocupe visitante! Ficara conosco até que morra em desespero nesse labirinto subterrâneo de escuridão.

-- Ele também pode morrer vítima dos demônios irmão! Ele não consegue controla-los como a gente consegue hehhehe

-- É verdade. Uma decepção. Total decepção.

-- Vocês! São loucos! Dois magos loucos vivendo em um buraco escuro! Não me importante quem realmente sejam. Só quero que saibam que estão se metendo com o herdeiro de Alastyr!

-- Herdeiro ele disse?

-- Foi o que eu escutei – respondeu um dos irmãos se aproximando mais de Demir e analisando bem seu rosto.

-- Espere ai! Agora estou entendendo! Vocês fizeram o dragão nos jogar no abismo! Mas por quê? Digam antes que eu os destrua servos infiéis.

-- Ele está arrogante não?

-- Igual ELE hehehe. Escute aqui você! Nós o trouxemos aqui por sabermos muito bem quem é.

-- Exato! Eu não poderia ter dito melhor!

-- Chega! O que querem de mim? Essa é a ultima chance que lhe dou!

-- lamentamos muito senhor! – disse os dois gêmeos em uníssono. – Queríamos apenas lhe dar um presente! Sabemos que está prestes a ganhar um país para você. Queremos que fique com essas duas espadas mágicas. Elas o ajudaram a derrotar seu rival na frente de seus pais. Garanto que ele ficara orgulhoso em saber que conseguiu um dos artefatos de Obliath.

Um dos irmãos entregou um par de espadas de lãminas negras e cabo dourado para Demir. Eram espadas curtas sem muitos detalhes, além da espiral do deus gravada por toda lâmina em dourado. Mas ao pega-las Demir sentiu de imediato o poder que elas emanavam. Era tanto poder que ele ficou um pouco embreado e acabou agradecendo feliz aquele ato.

-- Agradeço! Assim que um futuro governante deve ser tratado! Agora se puderem me levar a saída.

-- Não está se esquecendo de nada senhor?

-- Ah é! E me tragam o menino ranhento que as sombras arrastaram por esse labirinto!

Assim Demir foi conduzido por um extenso caminho. Muitos corredores, curvas e escadas naturais depois ele estava do outro lado do abismo. Em um pequeno platô com uma escada que conduzia até fora do Abismo. Nessa saída ele viu o corpo de Anólia e Eron caídos no chão.

-- O senhor não perguntou da menina, mas achamos que seria correto pedir ao dragão que a trouxe-se para cá.

-- Ah sim! Claro, eu me importo com ela. Ela será uma de minhas... como se diz... concubinas, esposa, ou algo assim.

Os dois irmãos encapuzados se entreolharam sorrindo e voltaram para dentro da caverna que saia do paredão do Abismo.

Eron acordou ao mesmo tempo em que Anólia. Ambos olharam para Demir com expressão de interrogação sem entender como chegaram naquele lugar.

-- Não se preocupem! Estamos quase chegando mas faremos o resto do caminho andando.



– Lugar feio seu país ein? – disse Eron enquanto subia o morro enegrecido por cinzas vulcânicas – Olha só ao redor! Tudo preto! Não tem grama, as arvores só tem galhos retorcidos e parecem ser feitas de pedra. Agora entendo porque você foi para Delus. Lá é muito mais bonito.

– Essa região é assim mesmo. Meu povo não dá muita importância para as terras próximas da fronteira. Não se preocupe que também temos terras verdes e exuberantes em enormes vales que outrora eram enormes montanhas de fogo.

– A gente vai passar por algum lugar bonito desses? – perguntou Anólia.

– Vamos não – disse Demir olhando para seu GPS – vamos continuar a viagem por essas terras cinzentas, cruzar o Abismo Sombrio e em poucos dias chegamos na capital onde meu pai o Eterno vai nos receber de braços abertos – disse Demir com o sorriso mais sincero que conseguiu dissimular.

– Eu sei que não conheço muito, mas certa vez o padre de nossa vila nos disse que seu pai era um monstro que escravizava demônios e regia a pessoas desse país com mão de ferro – disse Eron enquanto chutava um pedrinha com sua bota que mais parecia uma sandália de tantos furos.

– O mesmo padre que virou um fantasma e tentou nos matar no rio? Por favor! Não tem como vocês acreditarem em uma besteira dessas.

– Demir está certo Eron, o padre Parnis é ruim - disse Anólia engolindo seco e tomando coragem para contar o que havia ocorrido com ela graças ao padre.

Mas antes que ela pudesse contar algo Eron avistou uma criatura enorme sobrevoar o céu parcialmente nublado de Alasty. Ele correu para o alto de uma colina e subiu em cima de uma arvores petrificada para tentar ver a criatura mais de perto.

– O que é aquilo? – Gritou Eron na direção de Demir.

– Aquilo é nossa carona até a capital! – disse Demir animado e feliz por não precisar mais caminhar. Ele correu na direção de Eron, tirou alguns componentes mágicos de seu bolso e disparou uma bola de fogo com ambas as mãos em direção aos céus, visando interceptar a rota que a criatura alada fazia. A bola flamejante subiu cerca de cem metros e explodiu como fogos de artifício. Isso foi suficiente para chamar a atenção da criatura que mudou a direção de seu vôo para cima das crianças.

– Uau! Está chegando mais perto! Nossa! Nossa! Parece um dragão! Eu to vendo um dragão! Que legal! parece ser um dragão negro!

– É um dragão sim. Mas esse é um dragão de sombras criado pelo meu pai.

– De sombras? – perguntou Anólia vendo a criatura se aproximando planando e pousando perto da arvore. - mas aqui não é a terra dos demônios?

– É sim – disse Demir se aproximando da criatura de quase dez metros de altura. Esse dragão parecia ser formado por fumaça negra. Não era possível saber se ele era solido e encoberto de escuridão ou se era pura escuridão esfumaçada. Sua forma era a de um dragão ocidental. Quadrúpede, com duas asas enormes nas costas, pescoço alongado e cabeça semelhante a de uma iguana. Do topo da cabeça a ponta da cauda um crista de espetos se alinhava pela coluna. Mas meu pai é tão poderoso que depois de dominar as artes demoníacas ele começou a se aprofundar no controle das mágicas de trevas. Ele disse que é bom ter dois focos de magia para nunca ficar em desvantagem.

– Como você geralmente fica né? – cutucou Eron sem maldade, mas mesmo assim fazendo Demir bufar.

– Pelo menos ele faz magia Eron – defendeu Anólia. – E vocês dois parem de bobagem. O que eu quero saber é como vamos viajar nesse dragão.

– A gente só precisa subir em suas costas e sentar entre os espetos de suas costas e segurar firme em um deles – disse Demir olhando para o dragão e falando com o mesmo em uma língua que Eron e Anólia não conseguiram entender. Enquanto conversava com Demir o dragão o encarava com seu olho de energia vermelha brilhante. O dragão era fascinante e assustador ao mesmo tempo.

O dragão virou seu olho para Eron e Anólia e disse em idioma que conseguiam entender.

– Considero vocês como escória de um país medíocre sem sentindo ou propósito. Minha vontade é a de abrir suas cascas frágeis com minhas garras e brincar com as coisinhas que chamam de órgãos vitais. Entretanto devo respeitar o filho de meu criador, atender seu pedido e leva-los para a capital. Subam em minhas costas e tentem não falar durante a viagem. Negritaris será seu guia.

– Também fico feliz em conhecê-lo senhor dragão! – disse Eron sem se incomodar com a rispidez da criatura e começando a subir nas costas da mesma. – Olha! É sólido! Fumaça sólida! Vem Anólia eu te ajudo a subir! Isso pronto. Viu que fácil! Faz que nem eu. Segura nesse osso pontudo que está saindo das costas do dragão que você não cai daqui de cima.

Anólia endireito-se em cima do dragão e só de imaginar o mesmo voando alto ela começou a suar frio e suas mãos começaram a tremer em um espasmo incontrolável.

-- A Anólia tem medo de altura, não tem como fazer alguma magia para acalmar ela? – perguntou Eron para Demir.

-- Tem sim – respondeu Demir tirando um pouco de areia azul de um saquinho de pano e soprando nos olhos de Anólia.

Anólia pegou no sono e Eron a amarrou no dragão com uma corda tirada de sua maleta mágica.

-- Amarrou direito?

-- Amarrei sim. Não tinha um menino da vila que conseguia se soltar depois que eu amarrava. Meu pa... quero dizer, O Velho me ensinou a fazer uns nós muito legais.

-- Hum.. ele parece que foi legal com você. – disse Demir dando um comando para que o dragão alçasse vôo.

-- Acho que foi. Ele não tinha muito tempo para brincar comigo, eu passava quase o dia inteiro sozinho, mas a noite antes de dormir ele sempre me contava histórias sobre lugares incríveis. Uma vez ele me contou a história de um lugar onde as pessoas vestem peles de animais e caçam elefantes com presas gigantescas! Tinha também gatos gigantes com presas enormes que caçavam as pessoas! Não sei ao certo mas parece que tudo nesse mundo tinha presas enormes hehehehe.

-- O que está achando da viagem?

Eron se tocou e viu que o dragão já voava pouco a baixo da altura das nuvens. Era possível ver boa parte do país. Muitas montanhas enegrecidas por eras de erupções vulcânicas. Vales com charcos e algumas cidades-fortaleza até os limites da visão. Anólia dormia tranqüila presa nos nós firmes e gentis de Eron.

Durante a viagem Demir pensou em como seria ter seu pai lhe contando histórias antes de dormir, mas logo começou a rir consigo mesmo, seu pai era um eterno e tinha coisas mais importantes para fazer. Mas bem no fundo achou que teria gostado muito disso, afinal seu pais com certeza teria histórias melhores para contar do que qualquer pás de Mítica.

Algumas horas de viagem depois era possível avistar um abismo que dividia o país em dois.Ele cortava todo o território e tinha mais de 3 quilômetros de largura. Várias pontes o cruzavam. Mas nesse fim de tarde não era possível avistar nenhum viajante cruzando-as.

--Ué Demir, porque não tem ninguém atravessando as pontes?

-- É porque já está quase anoitecendo. Todos sabem que é perigoso atravessar o Absimo Sombrio depois que anoitece.

-- Por quê?

--É a hora que as sombras que vivem no fundo do mesmo saem para a superfície e assassinam qualquer criatura que ouse se aproximar dele.

-- Ainda bem que a gente vai passar por cima dele voando. Não quero ser assassinado, mais doque isso não quero que nada assassine Anólia. Ela é minha melhor amiga sabia?

-- Já sei já sei, e não seja tolo nós eternos não podemos ser assassinados. Nos máximo aprisionados ou banidos para outros mundos.

-- Hum..acho que entendi, bom agora me explica porque esse dragão está voando tão baixo?

-- O que pensa que está fazendo Negritaris? Se continuar nessa direção acabaremos entrando no abismo!

O dragão nada disse e em uma manobra aérea girou seu corpo derrubando Eron e Demir no Abismo. Eron caiu como uma pedra e Demir ainda conseguiu conjurar uma magia de vôo sobre si. Voando lentamente ele viu o corpo de Eron sumir no meio das Trevas. Ele tinha certeza que sem sua ajuda ele jamais conseguiria sair daquele lugar, finalmente seu rival eleito seria derrotado. Mas Demir precisava leva-lo para seu pai! Por conta disso vôo o mais rápido possível na direção de onde o menino caiu. Sua ambição em conseguir agradar seu pai era tão grande que ignorou o fato de Anólia estar indo embora amarrada nas costas do dragão.

Faltava pouco tempo para a noite tomar conta de todo o país. Ele tinha que ser rápido em seu mergulho nas trevas.

A sensação de estar dentro do abismo só é compreendida por aqueles que passam pela experiência. Além da escuridão absoluta, que lhe obriga a dependência do tato, olfato e principalmente audição é possível ouvir pequenos sussurros e lamentos das almas que ainda vagam no lugar. Demir estava caminhando no que deveria ser o fundo do abismo. Ele chamava por Eron e estava feliz por saber que o mais erro que aventureiros cometiam dentro do Abismo era tentar criar alguma forma de luz. A luz criava sombras que davam forma para as almas demoníacas que vagavam pelo lugar. Felizmente ele sabia esse segredo e isso o deixou horrorizado quando viu Eron dentro de uma caverna protegendo a chama de uma vela que ele tinha acendido. Menino idiota! Pensou!

-- Apague essa vela antes que eles te peguem!! Apaga isso agora! – gritou Demir desesperado voando na direção de Eron.

Infelizmente era tarde demais e a chama da vela havia dado forma aos monstros que agarraram Eron e o levaram para dentro da caverna. Os demônios de sombras tinham absorvido a luz da vela e agora tinham luz própria emitida pelos seus olhos vermelho-luminosos.

Eron seguiu as sombras e Eron pelo tempo que conseguiu, mas o labirinto de corredores subterrâneos conseguiu confundi-lo e ele acabou perdendo-os de vista.

Temendo ficar preso ele mesmo naquele lugar ele decidiu esquecer Eron e fugir dali. Um bom plano se consegui-se encontrar a saída. Podia usar o GPS, mas a luz do mesmo iria criar mais sombras. Só conseguia pensar no motivo do dragão das sombras. Porque ele tinha feito aquilo? Alguém o controlava? Ou esse tinha sido a vontade de seu próprio pai? A escuridão estava preenchendo sua mente com pensamentos negativos. Tanto que começava a duvidar que aquelas duas vozes que começava a escutar vinham de sua mente ao invés de outras pessoas.

-- Não nos ignore.

-- Parece até não está nos vendo!

-- Acho que ele não está nos vendo mesmo irmão!

-- Ah é! Pobrezinho. Foi criado na luz e se sente perdido em meio as trevas.

-- Damos alguma luz para ele?

-- Não sei, acho que logo ele se acostuma ou faz alguma magia para enxergar no escuro.

-- Será que vocês poderiam conversar comigo ao invés de agirem como se eu não estivesse aqui? – disse Demir achando muito estranho as duas vozes serem exatamente iguais a sua própria. – Se estão na esperança que eu faça alguma magia luminosa que atraia os demônios de trevas, podem esquecer! Vocês não vão me pegar nesse truque.

-- Acha que precisamos de algum truque? Os Dioscuros de Alastyr não precisam de truques! Tudo que precisamos de uma pequena luz! – falando isso um pequeno brilho se acendeu na ponta do dedo indicador em riste de um dos gêmeos.

Demir viu que estava em uma pequena sala cavernoas. Ficou feliz em saber que não estava enlouquecendo ao ver diante de si dois homens pequenos (ou crianças) de seu tamanho usando mantos negros de tecido esfarrapado. Era impossível ver seus rostos por causa dos capuzes. Atrás deles vários demônios iam tomando forma e esperando algum comando deles para agir.

-- Quem são vocês!

-- Acho que já nos apresentamos como Dioscuros de Alastyr não?

-- Tenho certeza que sim irmão! Esse rapaz é meio burrinho e não deve ter entendido.

-- Com certeza. Luz demais deve ter fritado a mente dele.

-- Pelo jeito sim. Mas não se preocupe visitante! Ficara conosco até que morra em desespero nesse labirinto subterrâneo de escuridão.

-- Ele também pode morrer vítima dos demônios irmão! Ele não consegue controla-los como a gente consegue hehhehe

-- É verdade. Uma decepção. Total decepção.

-- Vocês! São loucos! Dois magos loucos vivendo em um buraco escuro! Não me importante quem realmente sejam. Só quero que saibam que estão se metendo com o herdeiro de Alastyr!

-- Herdeiro ele disse?

-- Foi o que eu escutei – respondeu um dos irmãos se aproximando mais de Demir e analisando bem seu rosto.

-- Espere ai! Agora estou entendendo! Vocês fizeram o dragão nos jogar no abismo! Mas por quê? Digam antes que eu os destrua servos infiéis.

-- Ele está arrogante não?

-- Igual ELE hehehe. Escute aqui você! Nós o trouxemos aqui por sabermos muito bem quem é.

-- Exato! Eu não poderia ter dito melhor!

-- Chega! O que querem de mim? Essa é a ultima chance que lhe dou!

-- lamentamos muito senhor! – disse os dois gêmeos em uníssono. – Queríamos apenas lhe dar um presente! Sabemos que está prestes a ganhar um país para você. Queremos que fique com essas duas espadas mágicas. Elas o ajudaram a derrotar seu rival na frente de seus pais. Garanto que ele ficara orgulhoso em saber que conseguiu um dos artefatos de Obliath.

Um dos irmãos entregou um par de espadas de lãminas negras e cabo dourado para Demir. Eram espadas curtas sem muitos detalhes, além da espiral do deus gravada por toda lâmina em dourado. Mas ao pega-las Demir sentiu de imediato o poder que elas emanavam. Era tanto poder que ele ficou um pouco embreado e acabou agradecendo feliz aquele ato.

-- Agradeço! Assim que um futuro governante deve ser tratado! Agora se puderem me levar a saída.

-- Não está se esquecendo de nada senhor?

-- Ah é! E me tragam o menino ranhento que as sombras arrastaram por esse labirinto!

Assim Demir foi conduzido por um extenso caminho. Muitos corredores, curvas e escadas naturais depois ele estava do outro lado do abismo. Em um pequeno platô com uma escada que conduzia até fora do Abismo. Nessa saída ele viu o corpo de Anólia e Eron caídos no chão.

-- O senhor não perguntou da menina, mas achamos que seria correto pedir ao dragão que a trouxe-se para cá.

-- Ah sim! Claro, eu me importo com ela. Ela será uma de minhas... como se diz... concubinas, esposa, ou algo assim.

Os dois irmãos encapuzados se entreolharam sorrindo e voltaram para dentro da caverna que saia do paredão do Abismo.

Eron acordou ao mesmo tempo em que Anólia. Ambos olharam para Demir com expressão de interrogação sem entender como chegaram naquele lugar.

-- Não se preocupem! Estamos quase chegando mas faremos o resto do caminho andando.

Contos Mitinianos
É HORA DE VOLTAR

Passos apressados do outro lado da parede, era tudo que nos quatro conseguiamos escutar no comodo escuro onde estavamos amarrados. A única iluminação vinha da luz do corredor que passava pelas frestas da porta. Meus três companheiros estavam assustados e não entendiam porque estavam presos naquele lugar.
-- Acho que seria interessante que cada um dissesse oque estava fazendo antes de acordar nesse lugar - disse o homem que cheirava a cachaça. Pelo seu vulto ele já deve estar entra 33 e 45 anos. Devia ter mulher e filhos, provavelmente aflitos com seu desaparecimento.
-- Ah! Que diferença isso faz seu cachaceiro! - respondeu o rapaz parrudo amarrado na cadeira do meu lado, ele estava claramente em pânico e agia agressivamente como forma de defesa.
-- Faz toda diferença! Ou nenhuma.. bom, apenas tive essa ideia para puxar assunto.
-- Puxar assunto para que? Para ficarmos amigos e depois trocarmos cartões de natal!? Larga mão! Tamo fudido! É coisa dos traficantes da boca rival.. só pode ser.
Enquanto os dois discutiam o quarto individuo chorava bem baixinho. Era uma criança. Uma menina que devia ter entre seus 10 ou 12 anos. Pelo primeiro momento me comovi com a situação. Quero que entendam que poucas coisas são capazes de me fazer ter sentimentos como zelo, carinho ou alegria. Uma delas é a inocencia de uma vida recem começada e ainda não tocada pela podridão corrosiva da sociedade. e do tempo. Mas naquela situação a inocencia da criança estava ameaçada. Ela estava prestes a se tornar adulta pois temia que não fosse mais voltar para seus pais. Temia que fosse morrer. E é como dizem, nos tornamos adultos no momento que descobrimos a morte.
-- E você caladão? Tem algum motivo para estar aqui igual a esse marginal boca suja? - perguntou-me o homem que fedia a fumaça, bebia e perfume barato.
-- Não vejo necessidade de falar nada. A situação não é ruim. Tudo é uma grande brincadeira. Pode ficar calma criança. Logo será levada para os seus pais. Isso é tudo uma grande aventura e tudo vai acabar bem.
-- A vai se fuder cara! tá tentando acalmar a criança praque? Conta a verdade pra ela! A gente vai tudo morrer ou coisa pior.
-- Já sei! Isso deve ser a pegadinha de algum programa de televisão! E por você estar calmo deve fazer parte da produção! Sempre fui contra esse realitys. Sempre achei agressivos demais mesmo!
A criança não suportou o descontrole do cachaceiro e do marginal e começou a chorar mais alto e a soluçar. Esses dois já estavam passando dos limites. Essa situação toda já estava começando a me irritar. Se eu estivesse em minha terra natal tudo seria diferente. Espere, se eu estivesse em casa eu nunca estaria em uma situação dessas mas com certeza coisas parecidas ocorreriam bem debaixo de meu comando. Ah! Esse é um lugar estranho para compreender as coisas. Peço calma a criança mais uma vez desejo que os dois homens sejam levado desse lugar. Desejo o mais forte possível, mas minha vontade não tem muito poder nesse lugar. Alguns minutos depois a porta se abre e nos ofusca por alguns segundos. Tempo suficiente para que três homens usando trajes sociais brancos e aventais pretos entrem e levem o marginal. Enquanto agradeço mentalmente pela gaça escuto eles comentarem coisas do tipo "Esse tem potencial" "Vai durar bastante"
-- Ok! Isso já está indo longe demais! Vou processar seja quem for que esteja por trás disso! Você não perde por esperar amigo! - disse-me o cachaceiro. Minha expressão não muda mas consigo encostar a ponta de meus dedos nas mãos amarradas da menina e tranquiliza-la. Me viro para o homem e pergunto:
-- Está com medo que sua existência chegue ao fim? Porque? Isso é tão ruim?
-- Que papo de retardado é esse meu senhor? Não entendo onde quer chegar, mas sim eu dou muito valor a minha vida!
-- É por isso que bebe tanto? Normalmente as pessoas bebem para esquecer, eu particularmente considero um ato de sucicidio lento.
O homem ficou sem palavras.
Alguns minutos depois a porta se abriu novamente e levaram o senhor. Em toda sua dignidade ele gritou, berrou, chorou e até mesmo teve reações flatulentas. Foi uma cena curiosa de se presenciar.
-- O que vai acontecer com a gente tio? - perguntou-me a menina.
-- Não se preoupe. Nada vai lhe acontecer Ana.
Minha promessa foi vazia como eu e sentia no momento. Como eu poderia garantir a segurança da menina estando tão longe de casa? Esse lugar tinha suas próprias regras. Nesse lugar eu tinha visto o melhor e o pior do ser humano. Visto de uma forma que nunca antes tive a oportunidade. Mas incapaz de promover alguma mudança, incapaz de interferir.
Os três homens voltaram, eu podia sentir o cheiro de sangue em seus aventais. Eu quase não acreditei em minha reação quando pegaram a menina ao inves de mim. Gritei e mandei que me levassem no lugar dela. Gritei Ana com toda força de meu peito. Eu me debati e cai no chão amarrado em minha cadeira. Eu me debatia tentando me soltar. Um dos homens levaram a menina e os ouros dois ficaram para me controlar. E engraçado que em situações dessa lembramos de antigas habilidades. Desloquei meus ossos de forma inconcebivel para eles, me soltei das amarras e os ataques com oque eu tinha disponível. Meu punhos! Queria poder dizer que foi um combate bonito no qual sai vitorioso. mas como já disse estou longe de casa e aqui não passo de um saco de ossos com boas intenções. Acertei um ou dois socos ineficientes e acabei sendo espancado ouvindo frases do tipo: "Espero que gostem de carne moida!" "Esse vai ter que ser entregue aos pedaços, tá muito rebelde"
No final vi a escuridão quando um dos homens me segurou pelo cabelo e cortou minha garganta.
A morte tão procurada enfim tinha sido alcançada. Esperava mais sabe? Esperava ir para algum lugar diferente ou quem sabe me juntar novamente a essencia de meu pai. Bobagem! A própria morte não tem esse luxo. Quando despertei, abri meus olhos tirando rodelas de rabanete deles e vi que eu estava nu, e aos pedaços em cima de uma mesa de jantar, um pé meu estava no prato e uma mulher gorda, uma mão estava em um espeto sendo grelhada em uma lareira. Fragmentado como gado virei minha cabeça para espanto de um velhinho que desmaiou em sua cadeira de rodas, e vi a menina nua amarrada em um mastro de metal no centro de uma outra mesa, as pessoas daquela mesa usavam instrumentos de corte para arrancar nacos de sua carne e saborear ainda fresca a carne inocente. As pesssoas que o faziam agiam com enorme naturalidade, sorriam, brincavam, contavam piadas. Aquelas pessoas eram monstros que nunca tinha visto em minha existência de mais de 62.000 anos.
Olhei para as outras mesas e vi os cadaveres do bebado e do marginal, estavam com um sério problema de falta de carne em seus corpos. O suficiente. Minha mão que estava na lareira fez um gesto e os corpos cadavericos de meus antigos companheiros de carcere se reanimaram. Eu ainda tinha alguns truques que funcionavam nesse mundo e não tive receio em usa-los. Os morto-vivos começaram a atacar os convidados do jantar enquanto eu ia recompondo meu corpo. A cada cadaver novo eu gesticulva e o reanimava. Fazer isso me deixava extremamente exaurido, tanto que me vi obrigado a sentar na cadeira de rodas e ir com ela na mesa da menina. Ao meu redor um cenário belo e correto de mortos punindo os vivos. Sangue epirrava quando os mortos consumiam os vivos. Os "garçons" que não cairam em pânico tentaram lutar mas acabaram mortos. Nem me dei ao trabalho de reanimar seus corpos. Não era mais necessário.
Cheguei na menina, ela estava muito ruim e prestes a morrer em meus braços. Olhei para ela e disse:
-- Não se preocupe Ana, vou me vingar pelo que lhe fizeram!
-- Maaas eu não me chamo Ana.. - gemeu a menina antes de morrer em meus braços.
-- Eu sei - respondi abraçando-a cercado pelos meus novos amigos cadavéricos. Era hora de voltar.

1º Marília RPG
(MUSIC CLIP)



PIC NIC NERD
Mogi Guaçu-SP, 2009